Mais de 300 anos de fé, floresta e resistência às margens
do Rio Tapajós, em Alter do Chão — Santarém, Pará.
Uma tradição que atravessa gerações
Às margens do rio Tapajós, em Alter do Chão, o Sairé mantém viva uma
história que atravessa séculos e reúne fé, ancestralidade, música,
dança e os saberes do povo amazônico.
A origem da celebração remonta ao século XVII, período em que as
missões religiosas chegaram à região. A tradição nasceu do encontro
entre elementos da cultura indígena, especialmente dos povos Borari,
e a fé cristã introduzida pelos missionários. Ao longo do tempo,
diferentes influências culturais também passaram a fazer parte da
manifestação, dando ao Sairé a identidade singular que permanece até
hoje.
O próprio símbolo do Sairé carrega essa história. O arco ornamentado, acompanhado das cruzes, fitas, frutas e outros elementos, está relacionado às diferentes interpretações construídas ao longo dos séculos. Há registros que associam o termo Sairé a expressões de saudação, enquanto outras interpretações relacionam o símbolo à ideia de cordão, coroa ou elemento utilizado nos antigos rituais.
Durante gerações, a festa foi transmitida pela oralidade e pela participação da comunidade. Personagens como juiz, juíza, procurador, procuradeira, capitão, sargento, mordomos, mordomas, saraipora, alferes e foliões passaram a integrar os rituais que ainda hoje fazem parte da celebração. A Busca dos Mastros, a procissão, as ladainhas, o beija-fita e os momentos de devoção à Santíssima Trindade preservam parte dessa memória.
Em 1943, a celebração foi interrompida por determinação dos religiosos franciscanos. Três décadas depois, em 1973, moradores de Alter do Chão retomaram a festa, dando início a uma nova etapa de sua história. Desde então, a comunidade passou a desempenhar papel fundamental na preservação e na continuidade do Sairé.
Com o passar dos anos, a manifestação também ganhou novos elementos. Em 1997, foi criado o Festival dos Botos, incorporado à programação do Sairé e realizado no Lago dos Botos. A disputa entre o Boto Cor de Rosa e o Boto Tucuxi trouxe novas linguagens de música, dança, teatro e alegoria para a celebração, ampliando sua dimensão cultural e artística.
Mas o Sairé não se resume à disputa dos botos. A essência da festa permanece nos ritos, nas danças, nos cantos, nas histórias, na fé e nos conhecimentos transmitidos de uma geração para outra.
Hoje, o Sairé é reconhecido como manifestação da cultura nacional pela Lei Federal nº 14.997/2024. A celebração continua tendo como principal guardiã a comunidade de Alter do Chão, que mantém vivos seus rituais e saberes enquanto incorpora novas formas de expressão.
É essa capacidade de permanecer e, ao mesmo tempo, se transformar que faz do Sairé uma tradição viva.
Em cada mastro erguido, em cada ladainha, em cada dança, em cada fita que se movimenta ao vento e em cada apresentação dos botos, existe uma parte da história de Alter do Chão.
O Sairé é memória, fé, ancestralidade e celebração. É uma tradição que nasceu do encontro de culturas, atravessou gerações e continua sendo contada pelo povo que a mantém viva.
Ritual Borari
Fé cristã
Cultura ribeirinha
Lenda do boto
Arco do Sairé
Confira as embarcações disponíveis para Alter do Chão
Duas cores, duas histórias e uma só celebração da cultura amazônica
No coração do Sairé, em Alter do Chão, o Lago dos Botos se transforma em uma grande arena de música, dança, teatro, alegorias e narrativas que celebram a identidade amazônica. É nesse cenário que, todos os anos, entram em cena o Boto Cor de Rosa e o Boto Tucuxi, protagonistas de uma das manifestações culturais mais marcantes do Sairé.
O Festival Folclórico dos Botos foi criado em 1997 e passou a integrar a programação do Sairé como uma disputa entre as duas agremiações. A competição tem como uma de suas principais referências a lenda amazônica do boto, personagem presente no imaginário popular da região.
Mais do que uma competição, o Festival dos Botos é uma grande expressão artística. As apresentações combinam música, dança, teatro, figurinos, alegorias e elementos da cultura amazônica para contar histórias sobre os povos, as águas, as florestas, as tradições e a ancestralidade do território.
De um lado, o Boto Cor de Rosa. Do outro, o Boto Tucuxi.
Cada agremiação constrói, a cada edição, um espetáculo próprio, desenvolvido ao longo de meses de preparação. São artistas, músicos, dançarinos, artesãos, costureiros, aderecistas, produtores, coreógrafos e muitos outros profissionais envolvidos na construção de uma apresentação que leva para a arena diferentes narrativas sobre a Amazônia.
As cores também ajudam a formar a identidade das torcidas. De rosa de um lado, de azul e outras tonalidades associadas ao Tucuxi do outro, o público participa ativamente da festa, transformando as margens do Lago dos Botos em um grande encontro de paixão, criatividade e pertencimento.
A cada edição, os botos apresentam um tema que conduz toda a narrativa do espetáculo. A partir dele, são construídas coreografias, músicas, personagens, cenários, alegorias e momentos que dialogam com a história e com os saberes da Amazônia.
As apresentações também valorizam a memória dos povos que formaram e continuam construindo a identidade de Alter do Chão. Temas relacionados à ancestralidade Borari, à relação com os rios e as matas, aos modos de vida ribeirinhos e às tradições populares já fizeram parte das narrativas levadas à arena.
Em 2026, por exemplo, o Boto Cor de Rosa apresentou “Tapajônica – A História Não Contada”, enquanto o Boto Tucuxi levou para a arena “Iburari, Ocara Sagrada”, em espetáculos que abordaram diferentes aspectos da memória, da identidade e da ancestralidade do território.
A rivalidade entre Cor de Rosa e Tucuxi faz parte da identidade do festival, mas a força da disputa também está no trabalho coletivo que existe por trás de cada apresentação.
Ao longo do ano, as duas agremiações mobilizam centenas de pessoas e movimentam diferentes áreas da cadeia cultural. O resultado é um espetáculo que ultrapassa os limites da arena e contribui para a valorização da produção artística, da economia criativa e das tradições de Alter do Chão.
A competição é organizada a partir de um regulamento que estabelece os critérios e as condições para as apresentações, garantindo parâmetros comuns para as duas agremiações.
Ao som dos tambores, das toadas e dos instrumentos que conduzem a apresentação, o Lago dos Botos se transforma.
As alegorias ganham vida, os personagens entram em cena e as torcidas acompanham cada momento do espetáculo.
É uma história contada em cores, sons, movimentos e símbolos.
É a Amazônia apresentada por quem vive, conhece e carrega essa cultura.
Por isso, a disputa dos Botos é parte fundamental do Sairé. Cor de Rosa e Tucuxi representam duas agremiações, duas cores e diferentes formas de contar a mesma terra: uma Amazônia de rios, floresta, memória, ancestralidade e encantamento.
No Sairé, a competição termina quando as notas são anunciadas. A cultura, porém, permanece.
“Tapajônica – A História Não Contada”
O Boto Cor de Rosa abriu a noite do Festival dos Botos com um espetáculo dedicado à oralidade, à memória e aos saberes dos povos do Tapajós. A apresentação trouxe o povo Borari como protagonista, destacando a relação entre comunidades, rios e floresta e valorizando histórias transmitidas de geração em geração.
“Iburari, Ocara Sagrada”
Na sequência, o Boto Tucuxi apresentou uma narrativa inspirada na história e na identidade do povo Borari. A partir de Iburari, território associado à formação da atual Alter do Chão, o espetáculo teve como elemento central a Ocara Sagrada, apresentada como espaço de convivência, celebração e transmissão dos conhecimentos ancestrais entre gerações.
Flagras da fé, das cores e da tradição nas ruas de Alter do Chão
Fotos: Caio Lobato
Votação encerrada. Confira quem o público apontou como favorito
Cor de Rosa
Tucuxi
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